Infecção hospitalar – Relatos de uma farmacêutica em um centro cirúrgico

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Este post é um desabafo pessoal com posicionamento tanto como profissional da área da saúde  como paciente.

Tenho escrito matérias sobre qualidade na área farmacêutica, sobre as RDCs, dicas de sistema de gestão da qualidade, entre outros tópicos relacionados com cuidados e qualidade de forma geral, mas não entendo porque estas obrigações devam ser apenas para as indústrias.

Até as indústrias de cosméticos, agora com a RDC nº 48/2013, passam a ter mais obrigações com relação à Boas Práticas de Fabricação. Agora até validações e qualificações serão obrigatórias.

Entendo que tais medidas e cuidados são para preservar a saúde do usuário. Está certo. O Foco da discussão não é este. Até porque a busca por melhorias a qualidade deve ser constante.

[quote_center]Mas e os hospitais???[/quote_center]

Para fabricar um comprimido, e agora até para produzir um creme, são necessários diversos controles como vestimentas apropriadas, sistemas de ar validados, controle de pressão entre as áreas produtivas e antecâmaras,etc. Mas para entrar em um centro cirúrgico não precisa nada disso. Por quê?

Não entendo a lógica! Alguém me explica?

Para entender a minha indignação segue um relato pessoal.

Relatos de uma farmacêutica em um centro cirúrgico 

farmaceutica-cirurgia

Em 2012 fui submetida a um procedimento cirúrgico (o motivo não vem ao caso) de aproximadamente 6 horas de duração em um hospital privado, e de renome, em São Paulo.

Fiquei literalmente com as “entranhas” expostas por muito tempo e quais foram os cuidados para evitar uma possível contaminação / infecção?

  1. Uso de touca, sendo que a maior parte da equipe médica estava com os cabelos para fora;
  2. Lavagem e sanitização das mãos antes do procedimento;
  3. Máscara;
  4. Luvas;
  5. Solução de iodo para desinfecção do local do corte.
  6. Esterilização dos instrumentos cirúrgicos

E só!!!

Como assim?

E os cuidados para evitar uma contaminação / infecção hospitalar?

Deixa pra lá…

Agora vamos aos erros em termos de qualidade detectados por esta aqui que vos fala antes do início do tal procedimento cirúrgico:

11 Erros cometidos em centros cirúrgicos que podem causar infecção hospitalar em pacientes

 

1. Uso de brincos pelas enfermeiras e médica auxiliar – totalmente exposto

brinco-centro-cirurgico

Detalhe do “brinquinho” usado pela profissional de saúde durante procedimento cirúrgico – Exemplo de mau uso

Compreensivo, já que mulher tem que ficar bonita em qualquer situação. Certo?

Não, está errado!!!

A pessoa vai ao shopping, anda de metrô, vai sabe Deus aonde e depois entra em um centro cirúrgico com os brincos. Como pode? Já pensou fazer um plaqueamento para ver o crescimento total de bactérias contidas no acessório? Certamente o número de colônias seriam incontáveis! Aff!

 

2. Uso de esmalte

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Então para fabricar um xarope não pode usar esmalte na área produtiva. Mas para literalmente enfiar a mão dentro de um paciente tá liberado. Qual a lógica?

 

 

3. Relógio

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 Uso de relógio e manga curta durante procedimento cirúrgico – Foto de um centro cirúrgico de um hospital brasileiro

Médicos anestesistas podem usar relógio, afinal eles têm que controlar o tempo.

Relógio de parede não existe? Mesmo assim este deveria passar por rigoroso processo de limpeza.

 

 

 4. Celular

Royalty-Free Stock Photography by Rubberball.com

Acreditem ou não, mas um dos membros da equipe estava de posse de um celular.

Segundo estudo feito pelo American Journal of Infection Control, os aparelhos de celulares carregam bactérias patogênicas e multi-resistentes aos principais antibióticos. Entre as possíveis bactérias presentes no celular estão o Staphylococcus aureus, Escherichia coli, Klebsiella spp, Enterococcus spp e Acinetobacter baumanii. O estudo em questão fala sobre infecção hospitalar adquirida por pacientes através da transmissão dessas bactérias por meio de celulares de visitantes. Agora imagina o que pode acontecer quando o cirurgião ou alguém da equipe médica utiliza o celular durante um procedimento cirúrgico?!?

5. Abertura constante da porta durante a cirurgia

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Essa é demais! O médico da sala ao lado sempre quer dar uma espiadinha para ver o procedimento do colega. Afinal de contas, é curiosidade profissional.

Então, tudo bem abrir a porta, dar uma olha e perguntar o que está acontecendo. Um bate-papo entre profissionais sempre é produtivo. Mas precisa ser quando um paciente está completamente exposto?

E a possibilidade de infecção?

Sem comentários.

6. Espaço entre a porta e o chão

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Outra coisa que notei, e quase surtei, foi com o espaço de aproximadamente 5 cm entre a porta do centro cirúrgico e o chão…

 

7. Janela

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 Foto de um centro cirúrgico de um hospital brasileiro que possui janela

Janelas em centros cirúrgico, por mais absurdo que possa parecer, é algo comum, infelizmente.

É claro que a janela não vai ficar aberta, mas só o fato dela existir é algo assustador em termos de possibilidade de contaminação, além do acúmulo de sujeira.

O mínimo que deveria ser feito era colocar um drywall e eliminar este possível foco de contaminação.

 

8. Cantos com ângulos e piso de cerâmica com rejunte

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Exemplo de piso incorreto (cerâmica com rejunte e rodapé) e ângulos favorecendo acúmulo de sujeira – Foto de um centro cirúrgico de um hospital brasileiro.

Além da própria janela possuir cantos com acúmulo de sujeira, o piso em questão não tinha cantos arredondados.

Vai saber o acúmulo de sujeira que havia no local?  Melhor não pensar.

 9. Parede com azulejo

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Detalhe do azulejo na parede do centro cirúrgico – Foto de um centro cirúrgico de um hospital brasileiro.

Rejuntes, relevos e cantos, tudo para facilitar o acúmulo de sujeira e lógico, aumentar a possibilidade de contaminação / infecção hospitalar.

Infelizmente, muitos hospitais no Brasil ainda utilizam este tipo de revestimento.

 

10. Sistema de ar

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Duvido que havia algum tipo de controle do sistema de ar efetivo. Qualificação desse tipo de utilidade, para quê?!?

Gostaria de dar uma olhada no monitoramento do sistema de ar de hospitais. Alguma possível avaliação microbiológica ou um estudo de emissão de partículas por exemplo. Acho que é pedir muito.

 11. Controle de contaminação e infecção hospitalar

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Fica evidente que não há qualquer tipo de controle efetivo na maioria dos centros cirúrgicos do país.

O praticado é somente um paninho no chão com um desinfetante que não ajudará muito.

Apesar das exigências da NBR 7256/2005 sobre tratamento de ar na saúde, ainda há muito  o que ser melhorado. A Norma em questão traz as seguintes orientações com relação aos hospitais:

Prover o ambiente de aeração em condições adequadas de higiene e saúde;

  • Remover partículas potencialmente contaminadas liberadas no interior das salas cirúrgicas;
  • Impedir a entrada no Centro Cirúrgico de partículas potencialmente contaminantes oriundas de áreas adjacentes:
  • Proporcionar umidade relativa adequada e temperatura ambiente de conforto e segurança para o paciente e para a equipe de saúde;
  • Manter o nível sonoro mínimo de instalação e utilização do sistema de ventilação/ar condicionado.

A  RDC Nº 307, de 14 de Novembro de 2002 –  Regulamento Técnico para planejamento, programação, elaboração e avaliação de projetos físicos de estabelecimentos assistenciais de saúde, fala sobre o planejamento das áreas de saúde, mas é muito vago e não há qualquer orientação a respeito de estrutura adequada para evitar contaminação ambiental.

Também há a RDC nº 50 de 21 de fevereiro de 2002 que dispõe sobre o Regulamento Técnico para planejamento, programação, elaboração e avaliação de projetos físicos de estabelecimentos assistenciais de saúde, mas nada muito eficaz para evitar uma possível contaminação.

Com relação à RDC nº 50, seguem alguns pontos encontrados e ressaltados em negrito destacando a incoerência nas orientações do ponto de vista de combate à contaminação:

RDC nº50/2002

Item 8.7 – Zelar pela limpeza e higiene do edifício, instalações e áreas externas e materiais e instrumentais e equipamentos assistenciais, bem como pelo gerenciamento de resíduos sólidos.

Item 6. CONDIÇÕES AMBIENTAIS DE CONTROLE DE INFECÇÃO

Serão apresentadas como critérios de projeto, vinculadas às diversas etapas do processo. Nos casos não descritos nesta resolução, é adotada como complementar a seguinte norma:
NBR 13700 – Áreas limpas – Classificação e controle de contaminação.

C.1 Acabamentos de Paredes, Pisos, Tetos e Bancadas
Os requisitos de limpeza e sanitização de pisos, paredes, tetos, pias e bancadas devem seguir as normas contidas no manual Processamento de Artigos e Superfícies em Estabelecimentos de Saúde 2ª edição, Ministério da Saúde / Coordenação de Controle de Infecção Hospitalar. Brasília-DF, 1994  ou o que vier a substituí-lo.

Os materiais adequados para o revestimento de paredes, pisos e tetos de ambientes de áreas críticas e semicríticas devem ser resistentes à lavagem e ao uso de desinfetantes, conforme preconizado no manual anteriormente citado.

Devem ser sempre priorizados para as áreas críticas e mesmo nas áreas semicríticas, materiais de acabamento que tornem as superfícies monolíticas, com o menor número possível de ranhuras ou frestas, mesmo após o uso e limpeza freqüente.

Os materiais, cerâmicos ou não, quando usados nas áreas críticas, não podem possuir índice de absorção de água superior a 4% individualmente ou depois de instalados no ambiente, além do que, o rejunte de suas peças, quando existir, também deve ser de material com esse mesmo índice de absorção. O uso de cimento sem qualquer aditivo antiabsorvente para rejunte de peças cerâmicas ou similares, é vedado tanto nas paredes quanto nos pisos das áreas criticas.

As tintas elaboradas a base de epóxi, PVC, poliuretano ou outras destinadas a áreas molhadas, podem ser utilizadas nas áreas críticas tanto nas paredes, tetos quanto nos pisos, desde que sejam resistentes à lavagem, ao uso de desinfetantes e não sejam aplicadas com pincel. Quando utilizadas  no piso, devem resistir também a abrasão e impactos a que serão submetidas.

O uso de divisórias removíveis nas áreas críticas não é permitido, entretanto paredes pré-fabricadas podem ser usadas, desde que quando instaladas tenham acabamento monolítico, ou seja, nãopossuam ranhuras ou perfis estruturais aparentes e sejam resistentes à lavagem e ao uso de desinfetantes,  conforme preconizado no manual citado no primeiro parágrafo desse item.

Nas áreas semicríticas as divisórias só podem ser utilizadas se forem, também, resistentes ao uso de desinfetantes e a lavagem com  água e sabão, conforme preconizado no manual citado no primeiro parágrafo desse item.

Nas áreas críticas e semicríticas não deve haver tubulações aparentes nas paredes e tetos.

Quando estas não forem embutidas, devem ser protegidas em toda sua extensão por um material resistente  a impactos, a lavagem e ao uso de desinfetantes.

C.2 Rodapés

A execução da junção entre o rodapé e o piso deve ser de tal forma que permita a completa limpeza do canto formado. Rodapés com arredondamento acentuado, além de serem de difícil execução ou  mesmo impróprios para diversos tipos de materiais utilizados para acabamento de pisos, pois não permitem  o arredondamento, em nada facilitam o processo de limpeza do local, quer seja ele feito por enceradeiras ou  mesmo por rodos ou vassouras envolvidos por panos.

Especial atenção deve ser dada a união do rodapé com a parede de modo que os dois estejam alinhados, evitando-se o tradicional ressalto do rodapé que permite o acúmulo de pó e é de difícil  limpeza.

Concluindo

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Para uma farmacêutica que praticamente a vida profissional inteira trabalhou com sistema de gestão da qualidade todos estes relatos foram um choque. A vontade era de sair correndo e desistir da cirurgia, mas não tinha outra opção. O jeito foi rezar e encarar.

Sinceramente, não entendo certas coisas no Brasil. Depois de tantos problemas, se fosse uma indústria, esta seria interditada pela Vigilância Sanitária. Por muito menos empresas farmacêuticas já perderam o certificado de Boas Práticas de Fabricação.

No site da ANVISA foram encontradas apenas orientação dizendo que é bom evitar o uso de janelas em centros cirúrgicos, por exemplo, mas não é algo proibido. O oposto do que acontece na indústria.

O local onde deveria ser exemplo de qualidade e controle ambiental é justamente aonde ocorrem os maiores absurdos em termos de condições favoráveis à contaminação.

Já passou da hora da ANVISA tomar alguma medida a respeito.

Nós temos a RDC nº 17/2010 para indústrias farmacêuticas, a RDC nº 48/2013 para indústrias de cosméticos referentes à Normatização das Boas Práticas de Fabricação.

E as Boas Práticas de Atendimento Médico e Boas Práticas de Cirurgia não há?

Fica a dica.

E a nós farmacêuticos, olha aí uma oportunidade de sairmos de balcão e atuarmos onde de fato importa.

Sendo assim à classe médica e hospitalar conte com o apoio dos farmacêuticos para ajudar a melhorar a saúde deste país. Unidos podemos melhorar  muito a qualidade dos hospitais e centros de saúde.

Aproveitando a deixa, ficam algumas sugestões para a melhoria de hospitais, centros cirúrgicos e UTIs:

– ISO 9001/2015

Sistema de gestão da qualidade – que pode ser adaptado a àrea hospitalar.

Ferramentas da qualidade

– Controle ambiental

Sanitizante bactericida atóxico e ecologicamente correto.

E precisando de uma ajuda profissional, lembre-se do farmacêutico. Nós temos muito a contribuir e agregar para a melhoria da saúde no Brasil.

Referência

Fonte das imagens*: Google Brasil

19 COMENTÁRIOS

  1. Fernanda, trabalho em um hospital aqui em SP e desde que entrei, como estagiária, acho um absurdo como as coisas funcionam no centro cirúrgico. Toucas quase no meio da cabeça, deixando praticamente todo o cabelo de fora, médicas, enfermeiras e anestesista com maquiagem e esmalte… Sem contar o pro pé, que é colocado antes de entrar na área do centro cirúrgico, mas não é retirado na saída. Cansei de ver médicos com a paramentacão exclusiva do CC em áreas comuns do hospital e, pasme, até no estacionamento já vi médicos paramentados.
    Fica aqui a minha indignação e a minha vontade de que as coisas mudam, e muito, quando o assunto é centro cirúrgico.

    • Oi, Bruna!
      Sinceramente, acho revoltante o pouco caso com a questão da contaminação.
      E você tocou em um ponto importante que esqueci de mencionar no post: o uso de aventais e paramentação nas ruas. É o cúmulo do absurdo!
      Aventais não são feitos para desfilar na rua. Deve ser usados exclusivamente dentro dos hospitais e trocados dependendo da área/acesso, como é o caso de UTIs e centros cirúrgicos.
      E falando em desfile, é só ir na estação de metrô das Clínicas para ver os profissionais indo embora ou mesmo chegando para trabalhar já vestindo o avental. Não é possível que a ANVISA não teme nenhuma providência com relação a esta prática absurda e anti-higiênica, para não falar “porca”.
      Fica aqui o meu desabafo pessoal compartilhada da sua indignação.
      Agradeço por contribuir com as suas experiências.
      Abraços,

  2. Olá Fernanda, muito interessante seu artigo, estou chocada. Nunca fiz uma cirurgia e quase não vou a hospitais, não imaginava tantos absurdos nessa área. Como pode a ANVISA não fazer NADA, é como você comentou por muito menos têm industria farmacêutica sendo fechada. Obrigada por abrir nossos olhos para um assunto tão importante. Um abraço

    • Oi, Paula!

      O relato em questão foi apenas da última cirurgia na qual fui submetida. Tenho um histórico de 7 no total, todas em hospitais particulares.
      A situação em todos eles foi muito parecida. As melhores condições são dos centros cirúrgicos das maternidades que não tinham janela e possuíam pisos e paredes lisas. O resto era igual. Isso que estou falando de 2 das melhores maternidades de São Paulo… Agora imagina a situação dos centros cirúrgicos dos hospitais públicos Brasil a fora? A falta de repeito e cuidados com o pacientes é total.
      Abraços,

  3. Olá Fernanda! Muito interessante este assunto. É realmente chocante ainda mais para quem já viveu a rotina de Boas Práticas e Controle de Qualidade.
    Na maioria dos casos, acredito que os médicos tinham que dar exemplo à equipe.

    Parabéns pelo site. Muito bacana.

    Bjs

    • Oi, Ana Luiza!
      Agradeço pelo carinho de suas palavras com relação ao site.
      A respeito da postura dos médicos, concordo plenamente com você. Mas se a própria ANVISA não faz as cobranças necessárias, porque esperar muito do profissional ou dos hospitais? Para este último, pensando em um modo capitalista de ser, quanto menos investimento melhor, certo? E já que ninguém cobra mesmo…
      Outra coisa, até que ponto a grade curricular das faculdades de medicina cobram este cuidado? Não tenho esta resposta, mas imagino que seja bem menos que a nossa, visto os dois anos de microbiologia, entre outras matérias relacionadas ao assunto, ministrados aos farmacêuticos.
      De qualquer maneira, um pouco de bom senso, cuidado e higiene não faz mal a ninguém.
      Fica a dica.
      Beijos,

  4. Interessante matéria, principalmente para quem já atuou em gestões QSMS em unidades hospitalares. Interessante que em termos de normativas, não faltam não, temos normativas suficientes para resolver muitos dos problemas hospitalares. Acredito que as maiores raízes do problema são outras.

    Considerando a matéria, NR32 do MTE, Resolução ANVISA RE 09/2003, sobre controle de qualidade do ar em ambientes climatizados, a RDC 50 e a RDC 307 citadas na matéria, poderiam ser facilmente aplicadas para redução da infecção hospitalar e promover melhores ambientes tanto para clientes quanto trabalhadores.

    Indiretamente, se considerássemos a RDC 15, para processamentos de materiais, mais conhecida por quem trabalha em CME de hospitais, é irônico pensar que enquanto na CME ao lado se aplicam técnicas de desinfecção de baixo nível e alto nível, e esterilizações, e no Centro Cirúrgico ainda são vistos adornos, celulares, etc… dá vontade de pegar os adornos e os celulares da equipe médica e de enfermagem e jogar em um ciclo de autoclave ou em solução de glutaraldeido a 2% por 8 horas!

    A terceirização de quase 100% dos médicos cirurgiões, médicos anestesistas e instrumentadores cirúrgicos também auxilia bastante neste cenário, pois quando uma equipe de SESMT trabalha na aplicação da NR32, a frase constantemente ouvida pelo SESMT dos profissionais próprios dos hospitais é aquela, “porque que eu não vou usar esmalte e adornos se a médica Fulana de Tal chega para operar com cordão, brinco, pulseira, relógio?”. Enquanto isso, a mesma equipe de SESMT não pode abordar os médicos pois são terceiros e isto configuraria como subordinação direta, e geraria um sério problema contratual (e trabalhista) da unidade hospitalar com os médicos. Esta abordagem tem que ser cautelosa, de representante para representante contratual entre as partes.

    Concluindo, não acho que faltem normas. O que falta é fiscalização técnica de cada um dos órgãos/organismos responsáveis pela elaboração das normativas, em algumas situações falta conhecimento técnico, atuação ou a simples consciência daqueles que atuam como lideranças nas áreas de medicina, enfermagem, SESMT, e infraestrutura hospitalar, e em algumas situações falta mesmo investimento por parte da administração de hospitais para reformar ambientes cirúrgicos e adequá-los às normativas.

    As normas poderiam ajudar evoluindo, claro, não estou desconsiderando esta hipótese. A RE 09/2003 da ANVISA exige medições de fungos não patogênicos, mas existe uma consulta técnica de revisão desta norma que nunca finalizou, e na consulta isto modificava para avaliar também fungos patogênicos, bactérias, e com limites de tolerância mais restritivos para áreas hospitalares, pois a norma hoje não distingue se você está avaliando o ar de um escritório de contabilidade ou um centro cirúrgico.

    Parabéns para a Fernanda pela matéria, acredito que evoluindo esta pesquisa daria um excepcional estudo de caso para ser utilizado como dissertação de mestrado ou tese de doutorado.

    • Parabéns, Tiago!
      Perfeitas as suas colocações!
      Nada melhor do que o depoimento de um profissional com experiência na área hospitalar para mostrar em detalhes a triste realidade dos hospitais em termos sanitários.
      Agradeço imensamente pela contribuição e enriquecimento da matéria.
      Fica a dica do Tiago sobre a proposta de tese.
      Valeu pelo apoio e gentis elogios com relação ao post!
      Abraços,

      • Fernanda, obrigado!

        Penso que neste caso o que valeria muito seria a evolução do brasileiro. Sou engenheiro de segurança do trabalho, e tenho experiência tanto em hospitais como também em empresas que são obrigadas a se certificar em BPF pela RDC 16. Tem muita indústria também que possui a certificação, porém fruto de um cenário montado para ser visto pela auditoria da ANVISA. Auditor vira as costas e o cenário diário é um pouquinho diferente…

        Neste ponto, esqueço todas as instruções técnicas e me pego analisando uma questão mais simples: brasileiro terá um dia a disciplina de outros povos mais disciplinados que o nosso?

        Abraço!

        • É verdade, Tiago! Você está certíssimo!
          O problema talvez seja o “jeitinho brasileiro” de fazer as coisas e a falta de educação, não a do ensino, mas com relação ao caráter mesmo.
          Tomando como base países mais desenvolvidos (primeiro mundo, porque continuo achando aqui um país de terceiro mundo, por mais que esta classificação não exista mais), o respeito com as Normas e conduta é total.
          É uma questão de educação que vem do berço. Como o simples fato de não jogar lixo nas ruas, não furar filas, não bular ou mesmo não pagar impostos, etc.
          Infelizmente, é a nossa cultura, a da malandragem, do egoísmo e da impunidade, e por isso regras e Normas são pouco seguidas ou levadas a sério.
          Já passou da hora do Brasil acordar e mudar.
          Pronto, falei!
          Abraços,

  5. Há muito tempo estou observando detalhes importantes que comprometem a saúde e que envolvem a ausência do farmacêutico, com o seu conhecimento acadêmico severo tanto na área química quanto na área médica e que pode contribuir muito, porém ele está fora da equipe médica, isolado no canto de uma farmácia comercial, ou no balcão fazendo vendas ou ainda fazendo conta de somar e de subtrair ou segregado em uma farmácia de hospital para esperar solicitações absurdas de medicamentos totalmente alheios às informações clínicas. Nossa formação exige cuidados com o medicamento mas também com o paciente, nos cabe cumprir os tratamentos dos pacientes e não intoxicá-los ou seja precisamos praticar farmácia, porém assistimos o fracionamento de medicamentos nas enfermarias de forma parcial e inadequada, acúmulos inaceitáveis de medicamentos importantes nos Centros Cirúrgicos e nas diversas enfermarias de maneira que muita das vezes tem mais medicamento na enfermaria do que na farmácia, etc., etc., etc., ……………………………….

  6. Vou contar uma breve história que nunca quis dividir com ninguém. dado ao seu teor macabro e absurdo. Acabei guardando isso no âmbito familiar. Há mais ou menos 22 anos atrás, eu trabalhava com representações comerciais e buscava produtos inovadores para coloca-los no mercado. Acabei conhecendo um pequeno empresário, no ramo de engenharia eletrônica, por sinal, ele próprio formado em engenharia eletrônica, cuidava pessoalmente doa projetos. Ele me apresentou um pequeno aparelho, já em um formato definitivo e pronto para o mercado, que prometia purificar o ar de ambientes por meio de ionização negativa. Era um aparelho portátil, do tamanho de um carregador de celular, talvez um pouco maior. O processo era o seguinte: Nosso planeta gera uma energia eletromagnética, exatamente da mesma forma de um gigantesco imã, toda energia que saí do planeta, volta novamente em um fluxo contínuo. O que faz existir esse fluxo são os tipos de gargam negativa e positiva, essas cargas opostas se atraem como no imã. Este pequeno aparelho, desenvolvido a partir de uma modificação de um “flyback” dos antigos tubos de TV, gerava uma grande carga negativa por meio de uma coisa chamada de “vento iônico”, se espalhando pelo ambiente. Quando essa carga negativa entrava em contato com o ar, tudo que estivesse em elevação (partículas mais leves que o ar), se eletrificavam negativamente, ou seja, criavam uma carga contrária e eram atraídas pela terra (chão, paredes, portas, batentes, teto, etc.) tudo que estivesse aterrado era um campo de atração. As partículas eram atraídas e literalmente grudavam contra os aterrados, deixando o ar livre delas, isso inclui tudo, polem, bactérias, fuligens, etc. Esse aparelho, foi colocado no mercado, por mim e foi vendido em larga escala, inclusive o antigo Mappin o vendeu muito através do seu programa de tele vendas com o Emílo Surita. Ótimo, estávamos muito bem, mas eu tive a ideia de ir mais além, se esse produto melhorava a saúde de crianças com asma, bronquite e alergias aéreas diversas, poderia ser usado em ambiente hospitalar, sim, nós poderíamos desenvolver um modelo próprio para este fim. Pesquisamos e descobrimos que poderíamos multiplicar sua eficiência com facilidade para ambientes muito maiores e até instalando vários no mesmo ambiente. Isso foi feito, o passo seguinte foi testar sua eficácia, para isso, precisaríamos de uma área muito contaminada e consegui isso dentro do Hospital Samaritano em SP. Pedi à direção do hospital que me permitisse testar um novo aparelho e eles deixaram, perguntei em que setor o nível de contaminação era maior, a resposta foi direta, a lavanderia, chamada por eles de “área contaminada”, 4.000 kg de roupas, por dia, com resíduos de fezes, urina e sangue. Para se ter uma ideia do nível de contaminação, todos os funcionários da lavanderia estavam ou estariam em breve, com conjuntivite. Ótimo, eu já tinha o local de teste, faltava a empresa que iria testar, escolhi o mais conceituado, Instituto Adolfo Lutz. Contratei uma contagem microbiológica para antes e depois do teste de uma semana. Foi feita a contagem no dia em que fomos instalar os aparelhos e outra, uma semana depois com os aparelhos ativos durante esse período. Resultado? diminuímos 86% a contaminação no ar da lavanderia, área contaminada, todos fogem de lá, inclusive os médicos. Pensei na repercussão dessa notícia, além de ficar milionária, ficaríamos famosos. Peguei o laudo do Adolfo Lutz, o atestado do Samaritano e procurei o maior hospital do país, Albert Einstein, marquei com o infectologista chefe do hospital (não vou citar seu nome) e lhe apresentei tudo com um ar vitorioso e esperando olhos arregalados e incrédulos. Para minha surpresa e decepção (uma das maiores da minha vida), ouvi um parabéns e um, nem pense em tocar isso em frente. Meu jovem, disse ele continuando a explicação, existe uma coisa chamada indústria da contaminação hospitalar e não é teoria da conspiração, ela existe e seus tentáculos são muitos. Eles te destruirão, à você, à sua família e todos os que ameaçarem esta estabilidade que possuem, continuou, eu não vou me envolver com isso, me desculpe mas tenho amos à minha vida e minha família. Sabe quanto custa uma diária de UTI, meu jovem?, me perguntou, pois é isso gera uma fortuna e quem proporciona isso é a contaminação. Podemos encerrar nossa conversa, meu caro, agradeço sua boa vontade mas procurou a pessoa errada. Assim terminou aquele sonho. Quando levei a notícia ao dono da empresa, resolvemos não arriscar nossas vidas e seguimos o conselho de quem deveria zelar pela saúde das pessoas, um infectologista. História verídica e fácil de se comprovar.

  7. Sou farmacêutica e é real. Também trabalho com Boas Práticas e já questionei está falta de controle com os hospitais. Já ouvi relatos de comer em sala cirúrgica e outros mais. Mas quando ocorre infecção hospitalar é o seu produto o problema.

  8. Boa tarde! Sou farmacêutico com vivencia de mais de 12 anos em industrias farmacêuticas. Desde setembro do ano passado estou trabalhando com representação tecnico-comercial de um produto a base de ácido peracético.
    Durante esse tempo alguns itens me chamaram muita atenção. Conceitos básicos em qualquer indústria farmacêutica não existem ,tais como: – POP´s, Comprovação de treinamento de colaboradores ( principalmente do setor de limpeza), formulários de limpeza com a rubrica do colaborador que foi realizada a limpeza do leito, Procedimento para diluição de sanitizantes (muitos não possuem diluidores acoplados à saída de água).
    No centro cirurgico: presença de maquiagem, anéis, piercings, pulseiras, brincos, esmaltes, etc. Médicos almoçando com o estetoscópio pendurado no pescoço ou andando de metrô com o mesmo jaleco que ele presta atendimento.
    Enfim, depois de ver isso tudo montei uma consultoria especializada em controle de infecção hospitalar e os resultados estão aparecendo. Há muitos problemas e resistência, principalmente por parte da equipe de CCIH que dificilmente quer dar a cara a tapa e peitar a direção do hospital. Através de pequenas mudanças estamos desenvolvendo um novo conceito e os resultados começando a aparecer. Esse artigo tem tudo a ver com minha história atual.

    Parabéns a vcs!

    • Pois é, Braulio! Um absurdo termos a obrigatoriedade de tantos controles, documentos e exigências para fabricar pomadas e comprimidos e quando vamos a um centro cirúrgico todos os absurdos são totalmente aceitáveis. Qual a lógica? A vigilância sanitária/ANVISA não fará a respeito?

      Aonde está a coerência disso?

      Revoltante!

      Agradeço imensamente pelo apoio e pelo seu depoimento atestando a veracidade dos fatos.

      Abs.

  9. Boa tarde! Eu concordo totalmente com você!
    Sou engenheiro mecânico e trabalho com climatização e cada dia mais tenho surtado com o total descaso com a NBR 7256 e a NBR 16401, são coisas BÁSICAS que poderiam salvar inúmeras vidas. Achei seu post por acaso pesquisando na net se havia a mesma preocupação minha, pois o que tenho visto é total descaso e falta de preocupação. A minha região é conhecida como um grande polo de saúde, mas em várias clínicas e hospitais não existe preocupação alguma, é de se revoltar. Parabéns pela sua iniciativa de publicar, eu concordo totalmente que nós os profissionais devemos fazer o máximo de barulho possível.

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