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Relações líquidas

As relações líquidas na sociedade impactam o ambiente corporativo.

                                                               

Pra iniciar esse artigo gostaria de explicar o conceito das relações líquidas. O sociólogo polonês Zygmunt Bauman que é um dos filósofos mais respeitados e comentados no mundo define como  “Os tempos são líquidos porque, assim como a água, tudo muda muito rapidamente. Na sociedade contemporânea, nada é feito para durar”.

Não é necessário apelarmos para o campo da pesquisa para constatarmos de imediato que o termo “nada é feito para durar” está muito presente em nosso dia-a-dia, basta o mínimo de sensibilidade para com as coisas que acontecem ao nosso derredor, quando, já não está incorporada totalmente a nossa própria realidade. Casamentos que mal completam Bodas de Papel (01 ano), empregos instantâneos onde funcionários e empregadores mal sabem o nome dos familiares com os quais se relacionam, voluntários em projetos sociais que buscam sua própria identificação e satisfação esquecendo que o princípio de tudo isso é o próximo, transformando a essência da ação social em questões secundárias e assim migram de um lado pro outro sem criar nenhum tipo de laço e comprometimento. Podemos citar outros exemplos e o campo é aberto para várias reflexões a respeito.

O objetivo desse artigo é alertar e prevenir as pessoas para que as relações líquidas não destruam automaticamente conceitos importantíssimos para a sociedade como: comprometimento e responsabilidade. Você pode estar se perguntando, porque uma alternativa de vida contemporânea de dinamismo pode, por exemplo, descaracterizar o seu comprometimento e responsabilidade para com seu ambiente de trabalho, seja você empregado ou empregador?

Essa pergunta será respondida, antes gostaria de salientar sobre como esse termo líquido é construído fora das organizações, em lares, amizades e relacionamentos, sendo principalmente constatado na formação do ser humano através dos seus valores e percepções dentro de uma sociedade.

Benjamin Disraeli pensador britânico e Primeiro-Ministro do Reino Unido em duas ocasiões no século 19 tem uma frase interessante que diz “A vida é muito curta para ser pequena.”, mas ela faz muito mais sentido quando o Filósofo Mario Sérgio Cortella através do seu livro “Qual é a tua obra” a decifra em algumas de suas palestras com argumentos como, ”Já basta que ela curta seja para que eu possa desperdiçar tendo uma vida fútil, banal, inútil, superficial, morna.” “Precisa ter coragem pra não ser morno, pra viver uma vida decente”.

O que isso quer dizer?

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As transformações em uma sociedade são baseadas nas percepções e comportamentos dos indivíduos que nela vivem e que se constroem a partir dos movimentos de cada um. A formação e o desenvolvimento de um ser, um lar, uma família ou um grupo de pessoas baseadas em conceitos fúteis, banais entre outras acarretam automaticamente na disseminação de hábitos mornos e superficiais. Nesse ponto começamos a entender um pouco mais o que foi determinante para presenciarmos uma sociedade de relações líquidas cada vez mais alarmantes.

Você deve se perguntar se esse estado atual da sociedade de relacionamentos líquidos está condicionado apenas no novo, no período pós-gestação. Em partes sim, se pensarmos na forma que criamos ou criaremos nossas futuras gerações, porém para as pessoas já maduras que ainda tiveram contato com relações mais sólidas, sofrem o processo de transformação da tecnologia e suas facilidades. Vivemos na era do fast food, da internet das coisas, redes sociais, ou seja, a globalização, considerado o maior avanço da sociedade desde as conquistas do Império Romano. Faz parte do nosso amadurecimento essas novas experiências, ou seja, somos pressionados a nos acostumarmos a conviver com tais coisas e isso traz conforto, prazer e comodismo.

Onde se tudo é pra ontem e tudo se caminha para a inovação, não se tem mais tempo para a preservação, não há mais espaço para o longevo, o antigo é substituído pelo novo sem precisar saber o que pode ser aproveitado. Assim devemos saber como estamos nos posicionando como cidadãos perante aos conflitos e situações da vida, o quanto toda essa atmosfera da globalização nos influencia a sermos, “quero pro agora”, “não dá mais, troca por outro”, “terminei depois arrumo outro esposo” (a), “esse emprego não me merece mesmo”, “demorou 2 minutos para me responder!”, entre tantas outras situações onde nossos avôs e bisavôs nos reprenderiam por tamanha falta de paciência e em alguns casos com a indevida falta de respeito para com outras pessoas.

A seguir trago duas ilustrações gráficas do que significa a globalização no sentido da assombrosa expansão e relacionamento entre os países e pessoas em qualquer lugar do mundo, e em seguida falaremos sobre o quanto alteraram a forma de se relacionar. A primeira ilustração é em relação ao acúmulo e aumento do PIB dos países e como esse processo foi importante. A segunda é sobre os acordos comerciais que nos propiciam desfrutar de todo o consumo voraz pelo qual estamos muito acostumados.

 

Gráfico 1 – Globalização ao longo dos 05 séculos

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Gráfico 2 – Acordos comerciais     

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Quando iniciamos essa reflexão, falamos sobre as relações líquidas e o quanto elas comprometem em um ambiente de trabalho, pra isso o indivíduo vem se moldando a padrões de sociedade que são automaticamente absorvidos sem que ele perceba, transformando suas relações antes sólidas em relações mornas, distantes, sem a intimidade que uma amizade, ou um relacionamento merece e sem a atenção que boas conversas precisam ter. Passamos a virar cidadãos de convívio superficial, dando pouca importância às coisas, não só para os bens que possuímos que absolutamente não nos impede de consumir, mas que não nos limita a trocar a todo instante, fomentando a cultura do descartável, até que isso chegue a um trabalho, a um casamento, uma amizade entre outras coisas que podem ser facilmente substituídas a qualquer instante.

 

Esses último parágrafo nos ajudar a entender fatos no cotidiano que possibilitam a reposta para a pergunta feita logo no início. Porque uma alternativa de vida contemporânea de dinamismo pode, por exemplo, descaracterizar o seu comprometimento e responsabilidade para com seu ambiente de trabalho, seja você empregado ou empregador?

 

Para responder utilizarei 03 tópicos:

 

1º Objetivo e Missão
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Não há claro em ambos os lados (rara as exceções) a definição do que é o objetivo e a missão para que esse relacionamento seja longo e duradouro e que possa trazer frutos. Do ponto de vista do empregador, não considero essas condições Objetivo e Missão alocadas apenas em placas, sites ou estatutos da companhia, mas sim, o quanto esses valores de fato são diariamente colocados em prática com exemplos, investimentos que geram resultados satisfatórios no ponto de vista ético e moral, que agregam valor a sociedade. Contrapondo isso o empregado, não nos esqueçamos de que seu Modus Operandi* vem de relacionamentos superficiais, ou seja, essa falta de clareza automaticamente o deixará sem a identificação necessária com aquela companhia e consequentemente a motivação que possibilitaria uma mudança de postura não existirá, sendo assim, é uma característica bem clara de que o vínculo entre os dois acabaria logo, em alguns casos poderia nem acontecer.

Importante ressaltar que eu cito a companhia em algumas palavras, mas em todo o momento todas as circunstâncias são através de relacionamentos, isso significa que a empresa em si, são pessoas, desde acionistas passando por gestores a empregados, tudo se constrói a partir deles, portanto, toda e qualquer ruptura tem como único culpado as pessoas e suas motivações, nunca ferros e tijolos. Portanto é muito importante termos bem claro o que queremos como queremos e como vamos nos relacionar, qual a intensidade e valor entregar pra que seja algo positivo para as partes.

2º Formação continuada, sentindo valorizado
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São comuns todas as empresas com seus acionistas buscarem o crescimento, estimularem isso em seus empregadores e empregados para que a empresa evolua, expanda e cresça, isso é praticamente a forma que ela utiliza para se aperfeiçoar e se valorizar perante a sociedade e seus concorrentes. Porém, quando a valorização acontece sem raízes com o comprometimento pessoal, sem a devida gratidão, empregadores costumam desvalorizar o “antigo”, lembrando que antigo é diferente de velho, assim passam a curtir seu próprio prestígio pensando nos próximos desafios, acreditando que aqueles que ali estão não são capazes de acompanhar todo esse movimento.

O que não dá direito ao empregado a predisposição ao ócio*, sendo que sua mobilidade e capacidade intelectual primeiramente o favorecem e o fortalece acima de tudo, para depois agregar ao ambiente em qual ele reside ou trabalha. Entretanto, é primordial que o empregador descaracterize o fato de que esteja apenas usufruindo do empregado sua hora/trabalho, sua mão de obra para determinada função.

É papel fundamental do detentor do capital e de gestores estimularem a formação continuada dos seus empregados, a fim de valorizar o ser humano, fortalecendo o relacionamento entre eles e criando relações além do profissional, minimizando a distância entre os dois, dessa forma combatemos a era das relações líquidas. É relevante frisar que em muitos casos isso é descartado pra que não sejam dados insumos intelectuais a quem empregadores julgam “controlar” com riqueza e oportunidade. Mas se ambos esperam por uma sociedade menos desigual, que seja dado o primeiro passo juntos pelo mesma direção.

3º Reconhecimento

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A atual vida do consumismo pode ser perigosa, muitas vezes nos deixamos carregar por caminhos tortuosos, chegamos ao ponto de acreditar que reconhecimentos são importantes apenas no ponto de vista financeiro ou do poder, não digo que isso não seja o objetivo de muitas pessoas, mas estamos discutindo aqui justamente sobre não ter uma vida superficial e medíocre, não que poder e dinheiro não sejam importantes, mas não pode ser o centro do relacionamento, não pode estar acima das motivações e das conquistas, caso pense diferente de mim, tem todo o direito, mas reitero que o egoísmo e algumas doses de ganância contribuem para os relacionamentos líquidos.

É importante o empregado reconhecer as transformações positivas que obteve em seu ambiente de trabalho, a sua evolução, admitir isso também como contribuição dos seus gestores e colegas de trabalho faz com que demonstre gratidão pela pessoa que se tornou claro que isso deve ser feita independente se é ou não recíproco. Todavia, o empregador como liderança e competência que tem, deveria ter planos de reconhecimento de forma mais pessoal e individualizada. Estamos acostumados com premiações por tempo de casa de forma geral, alguns planos fajutos de carreira, e até mesmo algumas premiações financeiras, sejam elas boas ou hilárias. Alguns de vocês empregadores e gestores já sentaram pra conversar alguma vez com seus empregados pra saber se um pen drive de 64 GB o deixou reconhecido, ou ele preferia apenas que sua filha cadeirante tivesse uma roda da cadeira concertada, isso facilitaria o seu transporte no dia-a-dia.

O que podemos tirar disso? Reconhecimento é se sentir abraçado, se sentir dentro do time, sentir que tem alguém preocupado comigo, isso se faz com relacionamento sólido. Relacionamento líquido presenteia um cego com óculos de grau, presenteia um deficiente físico sem os pés com um sapato, eles poderiam usar? Sim, porém é a melhor escolha?

Procure estar mais próximo, escutar, se não tiver condições repense o plano, faça em conjunto, mas é sua responsabilidade acima de tudo como gestor e empregador, (não tirando a responsabilidade do empregado) saber o que se passa com o ser humano que se dedica ao seu negócio, que lhe traz riqueza e prestígio, isso inclui: medir caráter, conhecer sua família, suas necessidades, habilidades, e dificuldades, saber dos sonhos e perspectiva de vida.

Sem você se importar, a vida se torna morna, vida morna é uma vida medíocre, e com a mediocridade vem à falta de comprometimento e responsabilidade.

 

CONCLUSÃO

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Todo mundo busca de alguma maneira satisfazer seus desejos físicos e espirituais, nosso desafio todo dia é conseguir fazer de uma forma que traga maior satisfação possível, com menos dor, menos trabalho e sem grandes frustrações, talvez essa seja a busca pela tal felicidade, algo que o Filósofo Cortella classifica como picos de sentimentos maravilhosos dentro de si, mas que não são duradouros. Para Aristóteles, “a felicidade é o maior desejo dos seres humanos”. Do seu ponto de vista, a melhor forma de conseguir ser feliz é através das virtudes. “Cultive as boas virtudes e alcançará a felicidade”. Segundo Aristóteles, “a felicidade é um estilo de vida: o ser humano precisa exercitar constantemente o melhor que tem dentro dele”.

Não podemos tirar essa dúvida com Aristóteles, mas quando ele diz que devemos exercitar o que temos de melhor dentro de nós, com certeza podemos entender como qualidades, qualidades essas dentro de um senso comum ético em uma sociedade que beneficia aos demais e não prejudica. Devemos então ter como aprendizagem em nosso ambiente de trabalho a prática das relações sólidas, sólidas em que? Na atenção, no respeito, no coleguismo em saber o momento de ouvir e de falar, deixar claros os objetivos, saber valorizar e reconhecer, conduzir com todos esses ingredientes pra que tenhamos de fato relacionamentos verdadeiros, e assim se transborde na construção de uma sociedade melhor responsabilidade e comprometimento.

Felipe de Oliveira José

 

 

 

 

 

 

Notas de Rodapé

Modus Operandi* Modus operandi (plural: modi operandi) é uma expressão em latim que significa “modo de operação”. Utilizada para designar uma maneira de agir, operar ou executar uma atividade seguindo geralmente os mesmos procedimentos.

ócio*, Tempo livre, vago / O não fazer nada / Preguiça / Vadiagem.

 

 

Referências

CORTELLA, Mario Sérgio Qual é a tua obra? 2007 – Além de dezenas de Palestras assistidas

 

DATA, Our Word in https://ourworldindata.org/international-trade

 

GALILEU, http://revistagalileu.globo.com/Revista/noticia/2015/11/solido-como-uma-pedra-aos-90-anos-zygmunt-bauman-fala-sobre-migracao-e-relacionamentos.html

 

 

Citações

CORTELLA, Mario Sérgio ”Já basta que ela curta seja para que eu possa desperdiçar tendo uma vida fútil, banal, inútil, superficial, morna.” “Precisa ter coragem pra não ser morno, pra viver uma vida decente”

 

ARISTÓTELES, “a felicidade é o maior desejo dos seres humanos”. “a felicidade é um estilo de vida: o ser humano precisa exercitar constantemente o melhor que tem dentro dele”

 

BAUMAN, Zygmunt Os tempos são líquidos porque, assim como a água, tudo muda muito rapidamente. Na sociedade contemporânea, nada é feito para durar”.

 

DISRAELI, Benjamin “”A vida é muito curta para ser pequena.”,

 

 

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